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Artigo originalmente publicado na Agency Brasil em 2 de Setembro de 2024.

A primeira e verdadeira tecnologia humana, diferente das que vieram em seguida e que costumam vir em toda nova vanguarda pioneira, foi em realidade encontrada, e não criada. Pois o fogo, uma manifestação primordial e tecnológica da natureza, ao contrário do crédulo helenístico, não foi roubado do Monte Olimpo por Prometeu, mas sim, domesticado pelos Homo (Homem) Sapiens (Conhecedor) há cerca de 800 mil anos atrás (1), antes mesmo do homem começar as formar estruturas elaboradas e intangíveis denominadas culturas. Dita descoberta fora uma consequência da evolução cognitiva de nossa espécie que como um banco abrindo linhas de crédito para estudantes, passou homem começar as formar estruturas elaboradas e intangíveis denominadas culturas. Ditas descobertas foram uma consequência da evolução cognitiva de nossa espécie que como um banco abrindo linhas de crédito para estudantes, passou a relocar energia do bíceps e músculos corporais para o cérebro, que equivale em torno de 2,5% do peso corporal, mas que consome 25% da energia do corpo (2). O uso das ferramentas, entretanto, já acontecia por 2 milhões de anos (1), auxiliando nossos ancestrais primatas a sobreviverem à diferentes tipos de ameaças e predadores mas foi apenas depois da adoção tecnológica do fogo que se tornou possível o cozer dos alimentos, transformando a química e biologia de ingredientes primos em produtos finais, nutritivos, seguros e mais saborosos.

O fogo como tecnologia e força da natureza adaptada, passou a ser utilizada para defender, proteger e iluminar na mesma instância que também era utilizado para atacar, subjugar e ameaçar, levando nossa espécie não apenas ao topo da cadeia alimentar, mas também possibilitando a expansão territorial do Homo Sapiens como comunidades que agora possuía uma obediente força com capacidades praticamente ilimitadas de utilização. Desbravando assim, um novo horizonte onde seríamos mais capazes de explorar novas vertentes de nossas capacidades intelectuais; não chegamos a ser os primeiros organismos a desenvolver um sistema de comunicação, mas antes mesmo de possuirmos um dialeto linguístico elaborado, explorávamos o que Yuval Noah Harari, autor de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade rotula como “Linguagem Sapiens” (3) a capacidade vocal para sinalizar perigos e outros tipos de sinais. Como um CD-Rom de armazenamento limitado e como consequência de precisar compartilhar cada vez mais informações sobre o mundo, nossa linguagem evoluiu como uma forma de compartilhar rumores, visto que o Homo Sapiens é um animal social.

A expressão verbal, mesmo sem dialetos complexos para exprimir os detalhes de uma mensagem fora fundamental para o legado histórico e evolutivo de nossa espécie e do surgimento de novas formas de pensar. Mais uma vez, tínhamos um aspecto único que nos separava de outras espécies viventes, pois se comunicar sobre o mundo material era um traço de toda vida orgânica que visava sobreviver ou se reproduzir, tanto o reino plantae quanto o reino fungi e o reino animalia sempre se comunicaram entre si em o que pode ser considerada uma internet analógica e orgânica; porém apenas o Homo Sapiens era capaz de transmitir informações acerca de coisas que não existiam: Lendas, mitos, deuses e religiões começaram a popular o consciente e inconsciente coletivo durante a revolução cognitiva, datada em 70.000 anos atrás (4), através da expressão verbal, O mundo das idéias, cunhado por Platão em torno de 400 AEC chegava enfim ao mundo real e dos sentidos graças à linguagem e passaria a ter um impacto tão imensurável quanto a intangibilidade do que se era falado. A forma dos animais se misturavam no inconsciente de nossos ancestrais e criavam imagens que acabavam tomando forma em linguagem verbal onde um tigre se manifestava na mente do líder de uma tribo e se tornava assim um guardião sagrado da comunidade inteira. Esse pequeno mas profundamente significativo aspecto da evolução de nossa comunicação se tornou fundamental para nos destacar mais ainda como espécie pelo simples fato de que a capacidade de ficcionalizar o mundo era a característica mais singular da nossa linguagem, visto que ela impactava não só os sentimentos mas também nossos termômetros biológicos e anseios ideológicos.

Os mitos nutriam e ainda alimentam a capacidade sem precedentes dos humanos de cooperar e agir em consonância não apenas em grande número mas também visando os mesmos objetivos, mas na falta de métodos, eram compartilhados apenas como timbre verbal, repassado em fogueiras por gerações em histórias de sabedoria por anciões de tribos e resguardado pelos jovens como respostas para muitos mistérios da natureza que ainda não haviam sido desvendados. Foi apenas quando nossa espécie começou a se expressar de maneira mais permanente, artística e artesanal, com o desenho e pintura de símbolos em cavernas que o homem começou a trilhar um caminho de distribuir conhecimento sem que ele fosse deteriorado ou perdido pela prova do tempo. Foi pouco depois do início da evolução cognitiva que o homem começou a explorar a arte rupestre, a pintura mais antiga conhecida é um estêncil de mão vermelha na caverna de Maltravieso, em Cáceres, Espanha, que foi datada usando o método urânio-tório com uma idade superior a 64.000 anos e foi feita por um Homo Sapiens Neanderthalensis. (5) A representação de formas e animais serviam como referência dos mais sábios para os jovens membros da comunidade que se deparariam com os desafios da vida selvagem, mas dessa vez, com mais preparo e educação acerca do que teriam que enfrentar durante suas vidas.

A comunicação, a ficção, os mitos e os deuses se tornaram assim alguns dos primeiros aspectos intangíveis da sociedade humana; a cultura como um subproduto de sobrevivência – hierarquia – educação – costumes – conhecimento – história e informação passou não apenas a vestir o coletivo imaginário como também, através do tempo, evoluiu em novas esferas de organização da sociedade como comércio – política – medicina – literatura – leis – esportes – religiões – cinema – gastronomia – moda – música – arquitetura e sustentabilidade que representavam antes de tudo, ideias intangíveis do coletivo imaginário. Como um arquivo digital em formato .ZIP, a cultura humana passou a evoluir e acumular não só mais conhecimento, mas muitas tecnologias que através da aplicação de conhecimentos científicos, ferramentas e técnicas, como propriedades intelectuais da humanidade, passariam a não só facilitar nossas vidas, mas também abarcar uma ampla gama de recursos e inovações que otimizariam inequiparávelmente nossa habilidade de interagir com o mundo natural.

Muito obstante, a comunicação humana, kickstarted pela linguagem vocal, visual e depois verbal, manteve-se à evoluir proporcionalmente à complexidade e quantidade de informações e mensagens que precisavam ser repassadas por entre famílias – tribos – castelos – feudos – cidades – impérios – estados – países e enfim continentes. Por volta de 3.000 AEC (6), a civilização Egípcia inventava através do processamento da planta considerada por eles sagrada, Cyperus Papyrus, o auto-entitulado papiro. Assim, se tornou possível a primeira industrialização “piloto” do papel que facilitou o advento de não apenas pergaminhos mas também a documentação e registro de escrituras sagradas e governamentais. Tal inovação se fez profundamente significativa visto que os únicos meios possíveis para registros antes dela, eram muito menos sustentáveis, sendo esses: argila – pedra – madeira – osso e couro animal. Cerca de um milênio depois, em 2.000 AEC na Mesopotâmia (7), os Sumérios já começavam a escrever “A Epopeia de Gilgamesh”, que é considerada a primeira e mais antiga obra literária do mundo, escrita em tabuinhas de argila, a obra traduzia um conjunto de poemas os feitos do herói Gilgamesh e sua busca pela imortalidade. Meio milênio depois, em volta de 1.200 AEC os Fenícios (8) sintetizaram através da adaptação do alfabeto semita, o primeiro alfabeto puramente fonético, o alfabeto fenício, que posteriormente foi adaptado pelos gregos e deu origem ao alfabeto latino que é o mais utilizado atualmente.

Partindo desse ponto no tempo, a comunicação humana permaneceu analógica e rudimentar por cerca de 3 milênios até que em meados de 1500 EC, o inventor alemão Johannes Gutenberg comercializou a prensa móvel (9), a ferramenta responsável por industrializar a comunicação como nunca antes havia sido feito na história da humanidade, a reprodução em larga escala de imagens e textos aceleraria o ritmo no qual informação era produzida, registrada e distribuída de maneira que o conhecimento científico humano encontrou no alicerce literário a fundação da impressão. O que se seguiu depois disso, dois séculos e meio depois, em 1850 EC, foi o advento da revolução industrial, kickstarted pelo Reino Unido que iniciou um período de profunda transformação econômica e tecnológica que caracterizou a transição de métodos de produção manual para automação através de máquinas; transformando para sempre a economia global e levando a avanços na manufatura, transporte e comunicação. Com a invenção das máquinas industriais, os eletrônicos se tornavam cada vez mais populares e nesse mesmo período, em Londres, Ada Lovelace publicava o primeiro algoritmo escrito especificamente para implementação em um computador (10). A comunicação, que se apresentava antes analógica passou a tomar novas formas através da eletrônica e no próximo século, invenções como o telégrafo, telefone, rádio e televisão desbravaram uma nova era sem precedentes de fluxo de informação.

A história caminha agora para o presente profundamente entrelaçado da internet, um mundo de infinitas possibilidades onde a única limitação é a mente. A mesma que já foi capaz de criar a escrita e a ciência e que nunca mais pôde impedir seus progressos. A mesma mente que sonha com o intangível e cria o impossível. A história chega ao futuro, uma nova realidade de infinitas dimensões, um lugar onde todos se encontram com informações do passado – presente e futuro.

O futuro, assim, engole o passado e se torna o presente, nos mergulhando em profunda sinergia com a tecnologia que através da inteligência artificial e modelos de linguagem natural, recebem hoje as sintaxes de nossos idiomas, interpretam nossas palavras, processam minha e sua abstrações e entregam a mais pura automação em forma de sustentabilidade acerca da nossa matéria prima mais valiosa, nosso tempo. Prometeu, entretanto, pode não ter roubado o fogo do Monte Olimpo, mas a humanidade não haveria de perder tempo para descobrir que através do fogo, o ponto ideal da carne poderia vir a ser encontrado. A humanidade não haveria de perder tempo para encontrar mais uma vez na tecnologia, não apenas a chave da automação de sua produtividade mas também, de maneira primordial, o fogo de sua existência.

Referências Bibiliográficas

(1) – Sapiens P.20, Yuval Noah Harah.

(2) – Sapiens P.17, Yuval Noah Harah.

(3) – Sapiens P.30, Yuval Noah Harah, Nota Rodapé.

(4) – Sapiens P.11, Yuval Noah Harah.

(5) – Wikipedia, https://en.wikipedia.org/wiki/Cave_painting#cite_note-Hoffmann2018-9

(6) – Unesp – Enio Yoshinori Hayasaka, Silvia Mitiko Nishida, https://www2.ibb.unesp.br/Museu_Escola/Ensino_Fundamental/Origami/Documentos/indice_origami_papel.htm

(7) – Brasil Escola, https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-epopeia-gilgamesh.htm

(8) – Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Alfabeto_fenício

(9) – Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Prensa_móvel

(10) – History Computer, https://history-computer.com/ada-lovelace-complete-biography/

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